sábado, 20 de março de 2010

Em cada palavra vai um pouquinho...


Vez ou outra ele se dava conta que eu existia. Batia na porta, perguntava como andava a vida e contava alguma novidade. Ia embora e  levava algumas palavras.
Meio rude, um tanto quanto metido a sabedoria, mas com o coração grande. Ele ouvia de longe as coisas que eu pensava e respondia de algum jeito estranho que de vez em quando eu entendia. Mas não era sempre.  
Saber da vida dele era um privilégio de poucos momentos, ele não estava disposto a falar sempre, eu também não ia dizer que me importava com isso, vai que ele pensasse que eu estava interessada, porque eu não estava. Claro que não. 
Alguém batia na porta, deveria ser ele, por certo quer saber alguma outra coisa. Analisei bem sua fisionomia, parecia um pouco cansada ou triste, ou ele quisesse passar que não se importava com a minha presença e não fazia questão nenhuma de sorrir. Mas continuei a analisar, suas palavras eram curtas, era difícil manter uma conversa com ele. Do outro lado, eu sorria imaginando o que ele estava pensando. Ele tinha que ir, um mero tchau e a porta se fechou outra vez.
Quando a gente tem um amigo desse tipo, você vai estar sempre na dúvida se ele é realmente um amigo ou um conhecido de longa data, vai se perguntar se gosta de estar sempre do outro lado como mera ouvinte e quem sabe aprender a ser mais humana. Porque quando gostamos da presença de alguém, o carinho permanece mesmo na ausência,mesmo na falta de palavras trocados ou instantes compartilhados e a presença real é o que menos importa.
O tempo tinha nos envelhecido, um mais que o outro, pelo menos as aparências demonstravam isso, mesmo assim a cumplicidade era a mesma, a amizade quem sabe, fosse também. Era a minha esperança. Todas as vezes que eu ouvia o barulho do outro lado da porta eu ia com a maior alegria do mundo abrir, perguntar coisas banais e dizer meia dúzia de tolices. Para ele perceber que estava no mesmo território de sempre. E se sentir não exatamente esperado, mas, querido.

quarta-feira, 17 de março de 2010

nada.




Queria muito escrever um texto, mas não esta vindo nada que se aproveite. 

Fiquemos com uma imagem do nobre poeta, Mario Quintana .

terça-feira, 9 de março de 2010

quando o ser humano é o caminho. E só Deus faz possível.


É difícil começar um texto porque embora existam milhares de possibilidades de iniciar, a dúvida perdura. E por mais que achemos o correto, sempre haverão outras novas palavras. E assim acontece na nossa vida. Como sempre falam, quem vê um rosto não vê uma vida, nem o pensamento, nem planos e nem nada. Nossa visão é muito limitada, as perspectivas também podem não ser consideradas as reais e de uma instante para o outro quando tomamos consciência do que existe por detrás do 'eu' de verdade, tomamos um susto, ou melhor dizendo, um choque de realidade.
Vez ou outra eu me deparo com situações que me fazem pensar, ou imaginar que por mais que a gente olhe um rosto, não imaginamos o que se passa pela sua história. Não que exista distância entre os seres humanos, ou exista mesmo um limite entre a minha vida e a do outro. E em meio a esses sentimentos, lembrei de um pouco conhecido pelo, mas tão necessário.
Altruísmo  é um sentimento de quem põe o interesse alheio acima do seu próprio, assim está no dicionário.
O que pouco se sabe é que o verdadeiro altruísmo é utilizado em proporções diferentes pelas pessoas, e isso não pode ser medido. Já que as pessoas são dotadas de maneiras distintas de enxergar as situações. 

Altruísmo é a arte de viver para os outros, essa é realmente uma arte, ou melhor, um desafio
Sentimentos, proporção, relacionamentos é tudo muito subjetivo, por vezes até indecifrável de se viver ou entender. E quando não encontramos respostas lógicas para o que acontece no nosso dia-a-dia, eu chamo, carinhosamente de : SINAIS.

quinta-feira, 4 de março de 2010

o que você quer ser ?!

Escrever não é uma coisa que você simplesmente decide fazer pelo resto da vida. Escolher pela profissão de jornalista não é coisa fácil.
O salário é pouco, o trabalho é muito, e o desafio de estar se superando é constante. Dificilmente você vê algum jornalista em férias no Hawaii ou curtindo uma festa em família. Eles abdicam de muitas coisas em prol do doce(e amargo) sabor da busca pela notícia. Pelo furo. Pela inovação.
E já na universidade você sente isso, e não nego que dá um certo medo. Porque além dos sonhos de um futuro brilhante, cidade grande e badalações diárias, eu venho com uma carga pesada de vida interiorana e fim de tarde vendo a novela das seis.
Como eu disse algumas vezes, eu tenho sim desejos revolucionários, mas no fundo sou uma criatura um tanto quanto conservadora e que não mistura leite com manga. Por muitos momentos passou despercebida de tão silenciosa, mas que de uma maneira contraditória quer ser conhecida, pelo seu trabalho, pelas suas palavras.
Jornalismo é verdadeiramente é um desafio. E quem disse que o saboroso não é difícil. E quem falou que durante a caminhada eu não posso ter dúvidas ?!
Bom...o que eu posso falar disso tudo é que eu me permito. Permito-me pensar em ser psicóloga hospitalar e  ser uma grande professora de história ou doutora em cultura brasileira.
E mais que isso, eu me permito ser JORNALISTA.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma velha loja de discos antigos e livros usados.

Remexo as palavras com destreza, as poucas palavras que conheço se tornam menos ainda quando me vejo diante da obrigação de falar.
É de certo que eu não pretendia mesmo usá-las, mas seria de bom grado que eu soubesse ao menos o que desejar na hora da despedida, mas eu não sabia. 
Permaneci calado por longos cinco minutos, olhei vagarosamente para analisar se sua postura estava parecida com alguém que estivesse insatisfeito.
E decidi ir-me. Olhei para próximo dos teus olhos e balancei com a cabeça no sentido de mostrar que eu estava indo. E sai, andando em passos longos sem olhar para seu rosto, apenas observando o movimentar dos meus pés, que pareciam ter vida própria e um forte desejo de sair logo dali.
Só na segunda esquina do quarteirão foi que eu me dei conta que tinha saido sem me despedir, pensei em voltar,   mas já era tarde. 
Imaginei que você também não tivesse vontade de dizer nada, pois não abriu a boca nem para bocejar. E continuei andando.
De repente me vi próximo de uma loja de discos antigos e livros usados, como eu não tinha nada para fazer do resto do dia, entrei.
A primeira prateleira parecia ser a única que era limpa, mas logo que remexi alguns livros, vi que tinha me enganado. Os livros estavam muito empoeirados o que me fez espirrar, o que eu não esperava era  que esse espirro tivesse ecoado por toda a loja.
Depois de silenciar novamente, ouvir passos se arrastando pelo corredor que vinha do fundo daquele ambiente, não observei de supetão, lentamente fui levantando o olhar. 
Pude ver, mas não claramente de que se tratava de um senhor de uns 75 anos com um rosto quase que iluminado pelos cabelos brancos que mesmo em uma pele branca se tornavam ainda mais brancos.  Fixei o olhar e vi um nobre sorriso direcionado a mim. Retribui. Não que eu estivesse com vontade de sorrir, mas por educação.
- O que procura em uma loja tão suja, jovem amigo? Não que eu desmereça a minha loja, mas é que não é comum pessoas da sua idade aparecerem nela.
Apenas balancei a cabeça em sinal de confirmação. O senhor parece ter se interessado em conversar comigo, mesmo que eu não tivesse dado sinais de querer falar.
- Mas me conte jovem, o que procuras?!
Me vi agora realmente obrigado a falar.
- Não procuro nada em especial, mas tive vontade de entrar, apenas isso.
-Hum...vejo que se trata de um jovem triste. Estou certo?
- Não sei.
Neste instante, percebi que o senhor me olhava com um olhar compreensivo. Agora sim, fui obrigado a falar.
- Estou me sentindo só, vi meu amigo ir embora e nada falei. Nem ao menos me despedi. Me sinto um fracassado por não saber usar as palavras. Ele era o meu melhor amigo, me dizia coisas confortantes, chorava comigo e me dizia sempre que não desistisse. E na hora que ele se vai eu não falo nada ! Não digo nada ! Nem um 'vá com Deus'  meu amigo! Nada!!
Depois de usar essas palavras percebi que estava chorando, chorei feito uma criança, de um jeito que eu não me permitia chorar mais.
O senhor segurou minha mão, e olhou para os meus olhos de uma maneira sincera, o que me confortou e disse:
- Seu amigo não foi embora. Ele sabe que você voltará com as palavras certas. E ele não iria embora sem se despedir de você.
- Como o senhor tem tanta certeza?!
- Pode parecer engraçado. Mas mais cedo, um jovem como você, apareceu aqui, dizendo que procurava um livro com as palavras certas. Achei curioso e indaguei porque ele desejava das palavras certas. Ele disse que usaria com o seu melhor amigo, para que pudesse ir com a certeza que poderia voltar.
Eu já não reprimia as minhas lágrimas e sem pensar, dei um abraço no senhor. E apenas disse:
- Muito obrigado.
Sai pelas ruas vazias, correndo para então poder falar o que eu deveria.
Cheguei ao meu destino suando, tremendo e imaginando que ele já tivesse ido. Mas quando olhei para o canto da sala, ele estava cochilando sentado sobre as malas.
Cutuquei devagar para que ele não se assustasse. Ele me olhou e me deu o mesmo abraço de quando eu tinha perdido o seu carrinho preferido e ele havia me perdoado.
- Amigo, vim para que pudesse dizer adeus e te desejar bons caminhos.
- Obrigado, eu estava somente esperando isso para que eu pudesse ir em paz.
Nos abraçamos e ele se foi. Quando voltei pelo mesmo caminho a fim de que falar outra vez com aquele nobre senhor me deparo com uma placa de 'Luto'- pelo dono da loja, o senhor Pedro.

Essa história somente foi feita para exemplificar o quanto nos prendemos desejando dizer as coisas certas ou quando perdemos tempo com inutilidades ao invés de retirar aprendizado dos momentos.
Ou ainda não esquecemos de dizer adeus aos que realmente importam.



  


Basta nada

Viver é um momento. Contemplar.  Viver é um sopro. Lembro-me do primeiro contato com o morrer. Eu tinha cerca de cinco anos. De mãos...