Há um tempo atrás tínhamos o costume de ganhar as tabelas da copa e preenchê-las. Mas hoje com a cultura cada vez mais internauta e sem tempo para tudo, deixamos esse costume de lado.
Lembro da minha infância não muito distante, quando meu avô chegava com tabelas da copa do mundo de todos os jeitos, pequeninas de papel de revista, maiores de papelão, coloridas ou não. Mas sempre com aquelas bandeirinhas dos países mais conhecidos e aqueles que eu nunca tinha ouvido falar.
Ele escolhia uma das muitas tabelas que ganhava e me dava, pedia que eu anotasse todos os resultados. Era o nosso ritual. Eu não fui o neto primogênito que ele esperava, mas com tempo e preparo me tornei o neto-homem que ele ainda não tinha, mas versão saias.
Sentávamos no sofá da sala, pegávamos as nossas tabelas, canetas bic sem bocal e mordida no fundo, algum petisco e esperávamos o início da copa do mundo. Não importava o horário do jogo, nós iríamos assistir (para o desespero da minha mãe, que tinha que me acordar cedo no outro dia).
Muitos jogos não eram emocionantes, não tinha os grandes craques da bola, nem conhecíamos os países, mas mesmo assim, discutíamos as jogadas erradas, os gols perdidos e no fim, anotávamos o placar na nossa tabela. Durante aquele mês, o ritual se repetia, a tabela ia sendo completada dia a dia, como um quebra-cabeça de peças incertas. E mais do que um jogo, era uma aproximação familiar. Meu avô não é necessariamente um exemplo de sentimentalismo e eu gostava de assistir aquele monte de gente correndo atrás de uma bola, que iam em busca de uma taça. Trazendo alegria para quem não tinha nada no armário para comer e para aqueles que assistem em grandes telões. Uma união.
Não vou negar que tenho uma daquelas tabelinhas na minha bolsa, mas não sinto vontade de anotar o placar, nem acompanhar os jogos. Sem os petiscos, o sofá e o meu avô por perto, torcer pela seleção não faz tanto sentido.
Ps: Apesar de que ele me ligou para dizer que guardou uma linda para mim, com folhas no fundo que dava para fazer anotações.
